O que a vida esconde dentro de um envelope negro?

            Foram oito ligações de quase duas horas cada, treze encontros ao acaso, nove cartas escritas e adesivadas, dez histórias mal contadas, quarenta mensagens indecifráveis, um envelope negro, quatro tarôs na mesa, dois CDs e dois livros emprestados, quinze mal entendidos, um milhão de pensamentos trancafiados na memória (sem exageros, talvez muito mais), treze músicas dedicadas, treze abraços de aniversário, cento e cinco fotos não reveladas, uma mágoa, duas saudades, seis rosas de formatura não enviadas, dois mil abraços não dados, oitenta citações de livros arquivadas, nove discussões sobre política que terminariam em pizza ou em horas de sono prorrogadas, trinta e cinco ingressos de filmes não comprados, 6 caixas de chocolate fechadas, cinco mudanças de casa sem um almoço de boas-vindas, vinte e dois ataques de choro adiados, sessenta e quatro bebedeiras na garrafa do tempo. Não há culpa por tudo que não viveram. Não entendemos como as pessoas podem mudar nossas vidas; somos tão tolos e sozinhos aos 15 anos.
Seguiram seus caminhos.
Uma noite de lua cheia e um show à espera de três moças mal intencionadas para aquela noite.
O semáforo mostrava uma luz vermelha e, do outro lado da rua, meu olhar cruzou com o teu.
O sinal abriu e eu precisava decidir, tendo apenas 21 segundos…
Mirei fundo em teus olhos e eles me pediam para ficar.
Quem dera pudesse ser vento e soprar para um futuro de sorrisos menos disfarçados da mercê das histórias já esquecidas – ou não. Eu me lembro do motivo que te fez ficar e me lembro do motivo que me fez partir.
Parado na escada, você brincava com meus cabelos e me dizia: eu tenho um motivo para ficar; subindo as escadas, eu dizia: eu tenho um motivo para ir.
Sentada na escada, ela observava a chegada do garoto. Ele usava óculos e tinha feições gentis.
– Podemos conversar? – Perguntou ele para a menina quase chorando na escada.
– Podemos sim.
– Sente-se ao meu lado e me dê a tua mão. Vamos falar sobre nós.
– Sobre nós?
– Eu te amo e quero estar ao teu lado.
– Eu também te amo.
          Diálogo imperfeito para um casal apaixonado aos quinze anos e, sinceramente, foi mais interessante da forma como ocorreu, porém muito mais doloroso. Simplesmente, a conversa parou em um não após termos podido conversar.
          Foi ao acaso que teus olhos colaram nos meus e o mundo parou. Atravessando a rua, 21 segundos e nenhuma palavra.
A frase de uma amiga ecoava em mim: "mais vale uma experiência frustrada que uma frustração não experimentada".
Tantos acontecimentos giram em um ritmo lento ou acelerado, dependendo da vazão das circunstâncias programadas no milésimo de segundo e das frequências em que o tempo nos toma em vista de algo que possa nos fazer parar.
Talvez, o que eu escrevo agora não seja o mesmo que chegue até você enquanto lês estes pequenos trechos de algo que passou em minha mente ontem, mas só tive clareza para traduzir ao papel após alguns goles de café.
Um passo à frente e outro para trás e eu vejo uma nuvem que encobre os traços e resquícios dentro dos olhos que não mudaram tanto…
Uma parada para literatura de cordel, um horário adiantado, uma conversa sobre teatro, um espetáculo de dança intimista, duas paradas para cumprimentar amigos, uma corrida em uma rua inclinada seguido de saltos cheios de risadas, caminhos estranhos, “portais”.
            E os caminhos seguem…
         O carro parou na esquina e os sons se misturaram às confusões mentais daquele instante…
O sinal era vermelho; o verde e branco das minhas roupas não faziam tanto sentido a uma figura mítica e passada: não existia nada que eu tivesse mais vontade do que te abraçar e dizer que você era uma boa lembrança na minha memória. O sinal fechou… os olhares se cruzaram, sorrisos de canto e nenhuma reação além de um baixar de olhos…
          No celular digitava a frase: Noite ótima!


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